A nação tricolor está em conflito.
Por falta de maior inspiração, permito-me iniciar essa coluna com a frase acima, de apelo fácil, dramaticidade exagerada e gosto duvidoso.
Mas tanto nas arquibancadas, como nas cativas, tanto nos fóruns como nas comunidades virtuais, multiplicam-se as discussões (que frequentemente descambam em conflitos) entre torcedores, que, de forma simplista, podemos dividir em três grandes correntes:
- os fanáticos fundamentalistas, defensores ferrenhos da “honra” do São Paulo, que vêem em qualquer crítica ou atitude de ceticismo uma traição às tradições e aos símbolos do clube (embora em muitos casos, mas muitos mesmo, desconheçam qualquer fato que remonte a mais de 10 anos)
- os moderados (sempre há moderados), logicamente mais frios e analíticos
- e os críticos mais ácidos, sempre preocupados com o destino do clube e prontos a massacrar quem (dentro ou fora de campo, comprovadamente ou não) represente uma ameaça ao de¬sempenho no presente e a todo o futuro da instituição – os tais “cornetas” – grupo no qual, por temperamento, me incluo.
Independentemente do “estilo”, entretanto, devemos considerar: embora não exista unanimidade no futebol – aliás, em quase nada –quando as discordâncias e trocas de ofensas entre pessoas que têm a mesma paixão se tornam freqüentes, e, quando, mesmo depois de ganhar três títulos nacionais consecutivos (e entregar o quarto), o time não convence uma enorme parte de sua torcida, certamente o problema não é com o perfil de quem torce, e sim, com o de quem dirige, treina e joga.
Todos temos nossas convicções, opiniões pessoais e pretensões sobre a melhor escalação, a estrutura tática mais adequada, sobre a qualidade técnica deste ou daquele jogador. Mas, desde o final do Campeonato Brasileiro e ao longo deste ano, independentemente de subjetividades, o que vem chamando a atenção é a falta de alma, de espírito competitivo, de hombridade do São Paulo dirigido por Ricardo Gomes. Algo que se fizera notar claramente na Libertadores 2009, com Muricy, que perdurou no início do Brasileiro 2009, teve uma considerável melhora após a saída do “Homem-Trabalho”, mas voltou a nos acometer ao final do Brasileiro. Quando tudo estava em nossas mãos, faltou pegada, faltou foco, sobraram desculpas, sobrou pusi¬lanimidade (em português mais popular, sobrou atleta tirando o seu glorioso traseiro da reta).
Fui a todos os jogos no Morumbi no ano passado e este ano, fui a Barueri, e não vi uma só partida em que houvesse atitude deter-minada, convicção e, sobretudo, concentração efetiva, permanente. O grupo está disperso, alguns jogadores simplesmente parecem entrar em um universo paralelo quando estão em campo, como se nada tivessem a ver com tudo que ocorre à sua volta.
O time de 2004 me animava muito pelo espírito de luta. Cuca, com todas as suas limitações, criou um espírito guerreiro. Lembro-me de pelos menos 5 jogos em que terminamos com jogadores a menos (contra o CAP no Morumbi, eram 2 a menos) e vencemos. O time se descontrolava, era nervoso, mas brigava.
Aí veio Leão, e acertou o time, deu confiança a quem não tinha, chutou uns traseiros de jogadores que estavam acomodados (Souza e Júnior têm hematomas até hoje) e, com o comando de Ceni e Lugano, com a força de trabalho de Josué e Mineiro, criou-se uma lenda, o São Paulo “cascudo”, o time que jogando com um a menos contra o Palmeiras na Libertadores, fez o Morumbi levantar em peso para levá-lo à vitória. Ouvi muita gente dizer na época: “finalmente a torcida do São Paulo aprendeu a torcer”. E respondi: “não, imbecis, finalmente, há um time de homens lá no gramado, sujando o uniforme, ralando o rabo no chão, indo atrás do resultado como quem vai atrás de um copo d’água depois de 15 dias no deserto”.
Não se iludam, torcida não empurra time que não luta.
A do Liverpool cantava “You’ll Never Walk Alone” quando o time tomava de 3 do Milan porque via o time se arrebentando pra reagir. E quando o Milan acomodou no resultado, fez-se a química, e os ingleses empataram, quase virara, e venceram nos pênaltis. Curiosamente, foi naquele mesmo dia, algumas horas após, que, ao nosso jeito, cantamos “You’ll Never Walk Alone” quando Josué foi expulso contra o Palmeiras e ajudamos o time a trucidar o rival.
Só ajudamos com tanta força, com tantas vozes chegando à rouquidão porque víamos a garra da liderança de Rogério, a expressão e os carrinhos de Lugano, a correria de Cicinho, o desdobrar de Mineiro, e sabíamos que eles honravam a camisa que vestiam. Jogávamos pelo empate e tínhamos um a menos. O que fizemos? Fomos pra cima, pra dentro, acuamos um assustado Palmeiras. Assustado com a gana do adversário e com o peso de sua torcida, inspirada pelo espírito guerreiro do time.
O time atual não “cheira” a título, não leva jeito nenhum de time vencedor porque não briga pelos seus objetivos. Aliás, parece nem ter metas. Alguns atletas julgam que sua missão está cumprida com um ou dois títulos brasileiros, a despeito de terem fracassado vexa¬toriamente em Libertadores seguidas. Outros, vieram de fora “aposentados”, vagam em campo, figuras cadavéricas, que, como parasitas que são, movimentam-se lentamente, mas expõem o time à decomposição, sem que nada lhes seja exigido, com rigor, com pulso. Juvêncio, que ao menos nessas horas sabia impor sua autoridade, parece preocupado demais com o patético projeto do Morumbi para a Copa 2016, tantas vezes esculhambado pela FIFA.
Ricardo Gomes não demonstra personalidade para fazer a conduta mudar, como não demonstra um indício que seja de ter um “11” na cabeça ou uma estrutura tática convicta. Mudam as escalações, as formações, continua o desleixo, a desconcentração, a vagabundagem. E isso é, sim, culpa do técnico.
A fragilidade de alguns adversários faz com que o time pontue mesmo sem jogar nada. Aí, vem um adversário sutilmente melhor, um Santos (que tem uma defesa grotesca, mas um moleque mais agilzinho) ou… um Once Caldas, e apanhamos. Por superioridade do ad¬versário? Não, simplesmente porque o adversário quer mais, tem mais volúpia e enfrenta um time em que ninguém se mexe, não há ultrapassagens, não há deslocamentos, não há jogadas ensaiadas, não há surpresas.
Não há fanatismo no mundo que faça uma torcida empurrar o time, quando os jogadores não demonstram qualquer ímpeto e quando não há comprometimento – e olhe que a torcida do São Paulo está até paciente. Vimos o Flamengo, com seus “chinelos”, afundando em 2005, tomando de 6 do São Paulo no Rio e, com ameaça de queda e tudo, não havia mais de 7.000 torcedores no estádio.
Vimos o Corinthians prestes a ser rebaixado, no Pacaembu chuvoso, contra o Vasco – uma verdadeira final para os gambás escaparem da Segundona e o “bando de loucos” ficou mudo, depois xingou o time e esvaziou o estádio após o gol do Vasco. O time, além de ruim, não vibrava, não suava.
A força que vem da arquibancada é espontânea no início, mas só se mantém ou aumenta como reflexo da disposição que se vê em campo. Quando caímos em 1984 no Brasileiro para o Grêmio, no Pacaembu, a torcida inteira cantou o hino do clube, muitos choravam de emoção. Sabia-se que aquele time podia trazer muita alegria. E trouxe.
Quando perdemos do Inter em 2006, cantamos o hino, batemos no peito, respeitávamos aquele grupo, eram campeões derrotados depois de uma grande campanha (que acabaria em titulo se o técnico não fosse Muricy, mas aí é opinião minha). Havia tristeza, mas havia orgulho. Como não reconhecer que aquele grupo de 2006 lutou com brio, com garra? Quem não se lembra do Beira-Rio em silêncio nos últimos minutos, do medo da virada no rosto de cada colorado? Mesmo desfalcado de seus dois pilares do meio-campo (palmas a Tinga que, a mando de Abel, quebrou Mineiro aqui), mesmo saindo atrás, aquele time deu um sufoco danado no forte (e esperto, malicioso) Internacional.
Vi muito time do São Paulo perder e ser aplaudido, e outros tantos vencerem e saírem vaiados. A torcida – que existe em razão do TIME, da INSTITUIÇÃO SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE, e que nada deve a ninguém que vista essa camisa sem honrá-la – identifica o espírito de quem está em campo e decide se vira o polegar para cima ou para baixo. E a atitude de boa parte desse grupo – indolente e absolutamente descomprometida – leva boa parte de nós a optar pelo gesto que leve nossos dirigentes a entregar certos atletas aos leões.
Para muitos, como eu, bastaria entregar ao Leão… ou a outro que, mesmo não tendo o nome, soubesse rugir.
Não apenas o futebol, o esporte em geral, mas a história mostra que não há glória sem esforço, não há vitória sem dor, não há triunfo sem vontade. Como aqui falamos tão somente de futebol, não vamos exigir que atletas que, em sua maioria, importam-se no máximo com o iPOD e o Playstation 3 (que aliás, dá pau) se enfiem nos livros para saber dos exemplos históricos. Que alguém lhes mostre apenas quem eram e como jogavam Roberto Dias, Forlan, Terto, Paraná, Dario Pereyra, Chicão, Pintado, Raí, Josué, Mineiro, Lugano. Jogadores de níveis técnicos variados, alguns até risíveis nesse aspecto. Mas com uma alma capaz de empurrar um time para a vitória com muito mais força do que a habilidade pura e simples – aquela do Cirque Du Soleil.
Rogério Ceni está lá e é um excelente exemplo de tudo o que há de melhor em atitude, em respeito, em vontade de vencer. Mas talvez por ser goleiro, os caras não o vejam, estão de costas pra ele na maior parte do tempo.
VERGONHA NA CARA, RAPAZES.
SEJAM HOMENS E FAÇAM POR MERECER A CAMISA QUE VESTEM. ELA REPRESENTA ALGO QUE TEM UMA DIMENSÃO INIMAGINÁVEL PARA A ESMAGADORA MAIORIA DE VOCÊS.
PARA TER UMA RAZOÁVEL IDEIA DESSA DIMENSÃO, ASSISTAM AOS VÍDEOS QUE MOSTRAM COMO FOI A VOLTA DO SÃO PAULO AO BRASIL EM 2005, APÓS A CONQUISTA DO TRIMUNDIAL. TALVEZ VCS SE INTERESSEM EM SE ESFORÇAR UM BOCADINHO MAIS, PARA TER A SENSAÇÃO DOS JOGADORES QUE ESTAVAM SOBRE AQUELE CA¬MINHÃO QUE PAROU A MAIOR CIDADE DA AMÉRICA DO SUL.
NOTA DO COLUNISTA: “Triunfo da Vontade” é o nome do filme no qual a cineasta Leni Riefenstahl retratou o 4º Congresso do Partido Nacional Socialista Alemão (aos desavisados, o partido nazista) ocorrido em setembro de 1934. É um filme de propaganda política – e até hoje a construção de mitos eleitorais – inclusive Collor, Lula (sim, ele) e Barack Obama – se faz com base no modelo aperfeiçoado por Joseph Goebels, do qual o filme é a síntese – uma combinação de gestos calculados, oratória eloqüente com viés demagógico, monólogos viscerais alternados com momentos de exortação às massas, apoiado por uma sequência de cenas monu¬mentais, que transmitam a ideia de que a multidão que ali se aglomera representa, na verdade, a vontade de toda uma nação. Em tempo, os regimes comunistas, nos quais sequer houve processo de eleição, mas havia o culto à personalidade, copiaram o quanto puderam a megalomania midiática de Goebels – de Stalin a Fidel Castro, com direito a paradas militares com formações simétricas cansativamente coreografadas e gigantescos painéis exaltando os “salvadores da pátria”.
Reconhecido como uma obra inovadora da produção cinematográfica, com tomadas de câmera e ângulos nunca vistos anteriormente – o filme tem em seu título o apelo mais genial. Pois ao longo da história alemã, a vontade, o esforço, o trabalho sempre foi um valor de referência, um ponto de honra.
Vencer pela vontade, pela disciplina e por honra às tradições era o espírito das tribos bárbaras – dos godos que, comandados por Alarico, minaram as legiões até invadir Roma. Era o espírito explorado por Bismarck ao promover a unificação e levar a Alemanha à vitória contra os franceses na Guerra Franco-Prussiana.
Foi, bem ou mal, o canal através do qual Hitler atraiu milhões de desesperados para fora da inércia da República de Weimar, chamando as massas a uma reação contra as imposições do Tratado de Versailles, que afundaram o país no pesadelo econômico e no caos político que culminaram na ascenção do nazismo. Sua paranóia antissemita era quase “cultural” na Áustria dos Habs¬burgos, onde nasceu, mas por serem os judeus uma presença marcante à frente dos bancos, Hitler ainda explorou a situação para usá-los como bodes expiatórios, algo fácil ao atacar a elite econômica de um país que chegava a ter 22.000% ao mês de inflação. Na verdade, os próprios judeus eram retratados como a clara oposição às virtudes morais do alemão: lucravam com os juros de empréstimos, eram, no quadro manipulatório criado pelos nazistas, “agiotas impiedosos”, parasitando o sangue e o suor do trabalhador alemão.
Deixados de lado (como se fosse possível esquecer) as atrocidades, a corrupção, as absurdas infâmias daquele capítulo da história humana, o filme tinha, enfim, forte apelo ao sentimento alemão por valorizar a força da persistência em restaurar as glórias germânicas.
“O Triunfo da Vontade” é, sim, um filme sobre a ascenção do nazismo e um dentre tantos instrumentos de manipulação das massas – o que se lamenta sempre, especialmente neste caso, pelas terríveis conseqüências que teve. A cruel ironia, entretanto, é que seu sucesso reside no fato de ser, também, um documento sobre o valor que um povo atribui a uma verdadeira virtude moral: o gosto pelo trabalho, pela disciplina e pela dedicação ao próprio país. Não é à toa que, duas décadas após a derrota na I Guerra, a Alemanha já assombrava o mundo com seu poderio. Não é à toa que, pouco menos de uma década depois do debacle na II Guerra, o país demons¬trava caminhar para restaurar o status de potência, o que se confirmaria nos anos 60 – assim permanecendo até hoje.
Schopenhauer baseou toda a sua filosofia no princípio da vontade. Nietzche “matou” Deus – metáfora de todas as abstrações – em prol do pragmatismo do trabalho, sobretudo do trabalho braçal, do lavoro suado, do produzir. E Marx, embora sabidamente burguês e vivendo da riqueza de sua mulher, apoiou toda a concepção do Comunismo Científico no princípio de que a evolução da sociedade leva ao poder, necessariamente, quem tem a força do trabalho. Eram todos alemães e tinham histórias de vida, linhas de pensamento e atuação muito diferentes. Mas todos valorizavam o que o seu país sempre valorizou.
Voltando ao futebol, a própria Seleção Alemã encarna o espírito da determinação que supera limites. Venceram em 1954, 1974 e 1990. Nas três ocasiões, seus oponentes eram superiores – nas duas primeiras, francamente favoritos.
Não tenho simpatia pela ideologia estapafúrdia do Nazismo – nem tampouco pelos sofismas vazios e pela completa ausência de fundamentação das teorias marxistas. Ambas mataram milhões de pessoas – judeus nos dois casos, compatriotas em quantidade muito maior nos gulags de Stalin – ambas levaram seus países à ruína.
O tema aqui é Vontade, e a determinação germânica sempre chamou minha atenção, tanto no que tange à sua tradição guerreira como no que se refere a todas as contribuições que a Alemanha trouxe à literatura, à física, à música, à filosofia, à tecnologia.
A Vontade é a força motriz dessa nação. E admiro isso.
Dario Campos
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