A bola, dentro do gol, movimenta-se para cima e para trás, e, deslocada pela cabeça de Alex Silva, na entrada da pequena área, voa em diagonal para o pé esquerdo de Iarley, fora da grande área. Ele então corre de costas e toca a bola para o seu pé direito, enquanto Jean passa voando, em um salto circense.
Assim é o quarto gol do Corinthians, visto de trás para frente, em mais uma das incontáveis derrotas do São Paulo em clássicos (e/ou partidas decisivas), ao longo dos últimos meses. Descrever o lance ao contrário é uma forma de dizer: “EU JÁ SABIA”.
Bastam poucos minutos de serenidade e aplicação a um adversário razoavelmente forte, para que o São Paulo seja desmontado, para que o fracasso se imponha ao “macunaímico” grupo tricolor – o time sem caráter e sem moral, debilmente conduzido pelo simplório Ricardo Gomes, homem de fino trato, devemos reconhecer, mas um dundee em meio a plebeus, um “pobre homem rico” engolido pelos lobos que não consegue domar.
Engraçado que, diante de um gol como esse, há raiva, tristeza, mas não propriamente decepção. Pois decepção denota surpresa, e, cá pra nós, ninguém deve ter se surpreendido em tomar esse gol. Ao menos, não se surpreendeu em perder mais essa partida.
É a crônica de uma morte anunciada.
Escrevi há alguns dias em post no Arquibancada Tricolor: “… se a Galinhada estiver a fim, vai ser de muito. Porque, quando precisa, o time da macumbaria (como diria a imbecil da mulher do Kaká – aquele bosta evangélico, ‘acionista’ da Renascer) quando preciso, tem macho – e sobretudo TÉCNICO – pra fazer o time jogar. Se quiserem, dão um cacete de categoria no domingo. E, se for para acontecer com o RG o que aconteceu com o passarela, quando metemos 5 cocos neles, em 2005, estou bem disposto a tomar uma naba.
O problema é que, para ele cair, temos que tomar mais uma goleada de 7, no melhor estilo Nelsinho Batista, e infelizmente, as Galinhas vão ter de fazer uns 3 e descansar pra Libertadores.”
Pois é, eles fizeram 3 e foram descansar pra Libertadores.
A morte estava anunciada, como a de Santiago, no livro de Garcia Márquez. E, assim como na obra do mestre colombiano, todos à volta do morto sabiam, todos conheciam ou haviam testemunhado fatos que levavam a crer que o assassinato aconteceria, menos a vitima. No livro, a culpa é de Ângela Vicário, cujo caráter fraco e egoísmo permite que um inocente pague por sua omissão. No São Paulo, a fraqueza de caráter é, também, a origem da destruição. Ricardo Gomes é Ângela Vicário.
De novo fraco, de novo sem inspiração, de novo sem qualidade, de novo sem jogadas trabalhadas, e, como sempre, sem vontade, sem pegada, o São Paulo foi – SIM, FOI – presa fácil para o seu rival. Que os ingênuos (e os imbecis) não venham a defender a pretensa reação que levou ao empate, porque não houve luta, garra ou superação. Houve um adversário arrogante (ou preocupado com algo mais importante), que ainda teve tempo de vencer, mesmo depois de jogar a vitória no lixo.
O Corinthians, de tão seguro, afrouxou, deixou o São Paulo jogar (da forma óbvia de sempre) e Mano Menezes, que poderia ter obtido uma goleada, resolveu poupar Elias, seu melhor atleta – aliás um dos melhores jogadores de meio-campo do país, um novo Mineiro, que nos escapou e acabou na Zona Leste. Só porque o Corinthians não quis, não vimos um massacre, como já acontecera nos 3 a 1 do Campeonato Brasileiro.
Estava anunciada a morte no Brasileiro, quando o time foi incapaz de derrotar o triste Botafogo no Engenhão. Via-se um Flamengo afobado, mas empolgado, vibrante, consistente, enquanto o São Paulo demonstrava uma atitude absolutamente desinteressada e um técnico morno. Deus nos deu o titulo – quando, no mesmo domingo, houve o empate do Flamengo com o Goiás. Mas recusamos. Perdemos para o Goiás com uma facilidade constrangedora, com as laterais expostas desde o primeiro minuto, e RG incapaz de proteger o sistema defensivo e criar situações de contrta-ataque.
Estavam anunciadas as derrotas em clássicos – esta contra o Corinthians de Mano Menezes (que no mínimo, chega à semifinal da Libertadores – mas infelizmente acho que irá levantar o caneco) é apenas mais uma.
Nossa queda na Libertadores será mais uma morte anunciada. Já nesta fase ou, na melhor das hipóteses, nas quartas-de-final – se a sorte nos sorrir nos cruzamentos das oitavas.
Esperanças? Não com esse comando. Não com esse técnico. Não com Léo Lima. Não com Washington. Não com Hernanes como meia. Não com Jean na lateral. Não sem jogadas ensaiadas e deslocamentos constantes. E, principalmente, não com uma diretoria dispersa, pensando exclusivamente em como encher os bolsos, por ocasião da maldita Copa 2014.
Para reforçar, lembrem-se das imagens aéreas na TV:
1- São Paulo com a bola: jogadores fixos, esperando o passe praticamente sem sair de uma única posição, de costas para os marcadores. Quando a bola passa o meio-campo, três, quatro, cinco jogadores do Corinthians vão se aproximando, acuando os jogadores do São Paulo, que tocam para o lado ou para trás. Em todo o jogo, apenas a jogada de Dagoberto (individual, não coletiva) no gol de Jean, foi vertical, teve profundidade.
2- Corinthians com a bola: jogadores de meio e ataque se deslocam em diagonal, os volantes se alternam nas laterias e de repente correm para o meio para fazer 1-2 e concluir jogadas. Há ultrapassagens, tabelas, e espaço, muito espaço para a evolução e o chute de meia distância – o gol de Elias e o de Alex Silva (contra) evidenciam uma marcação distante, que deixa o adversário pensar e criar.
Mano Menezes é um técnico preparando um time para ganhar o torneio continental, usando os jogos importantes pra apurar o time. Há alternativas, há referências (o Gordo, Danilo, Elias), há jogadas nas laterais e pelo meio, há chutes de meia distância (dois gols e uma bola na trave assim). Fomos um treino de luxo.
Ricardo Gomes não tem um 11. Não tem padrão. Não ensaia jogadas. Não tem esquema de proteção à zaga (hoje, de novo, muito exposta – e só não foi pior graças a Rodrigo Souto).
Santiago morreu, porque não sabia que sua vida estava em perigo, ignorava ser alvo de uma vingança, ensejada por uma mulher que foi capaz de sacrificar um inocente, em benefício de um homem que lhe interessava.
O São Paulo morreu porque ignora a forma como jogam os adversários. O mundo – até Garcia Márquez – sabe que Elias vem de trás e Ronaldo faz pivô para o volante/ponta-de-lança concluir ou penetrar. Nossa defesa, a despeito de ser vazada a todo momento por Elias, ainda não sabe. Como Ângela Vicário, Ricardo Gomes nos condena por sua falta de personalidade, por não ter a coragem de fazer o que deve ser feito: afastar quem deve ser afastado; denunciar à diretoria quem deve ser denunciado – por vagabundagem e falta de profissionalismo.
E nossos diretores, como Pedro e Pablo (os irmãos assassinos de Ângela) nos matam, ao priorizar o que não deve ser priorizado, ao agir cegamente para satisfazer à própria obsessão, sem se preocupar com o mal que farão ao time e à nação tricolor.
Não podemos é fazer o que fazem os conterrâneos de Santiago que, diante de todas as evidências de que o mal está para ser perpetrado, preferem acomodar-se na incredulidade, no achar que as promessas de morte dos irmãos Vicário são bobagens, ameaças vazias.
O torcedor são paulino que se fizer de cego, surdo e mudo, que se esconder na “fidelidade anticornetagem”, ou se acomodar com glórias passadas (que não pertencem nem a esse técnico, nem a esse grupo), será cúmplice dessa morte anunciada.
Dario Campos
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