Em meio a zumbis, um único sobrevivente. Solitário, acuado, quase sem perspectivas.
Debilitado, ele erra. Parece ter esmorecido, perdido as forças, diante da derrota iminente, cercado por tantos mortos-vivos à sua volta.
Tudo parece perdido. Na verdade, tudo está perdido. E sua expressão demonstra a desesperança, quando encosta a cabeça no poste, após falhar quando não podia.
Herói de uma nação, ídolo de uma coletividade, apaixonado por suas cores, ele lamenta ser, em uma noite de tanto terror, de tamanha decadência e desesperança, o algoz a desferir o golpe fatal contra tudo o que ele mais ama.
Seu rosto mostra olhos marejados, evidencia o abatimento.
Aqueles que o reconhecem e jamais o deixarão sozinho; aqueles que sabem ser ele o líder que se manteve firme nos tempos difíceis e nos levou a todas as maiores glórias; aqueles que jamais esquecerão o que ele representa também têm olhos marejados.
Mas fenômeno estranho começa a acontecer. Sei, porque fiz parte dele. Estava apático, esperando pelo pior, como tudo fazia crer que as coisas se desenrolariam. Mas ao perceber que os ímpios, os párias, os idiotas que pedem seu retiro levantariam suas vozes, desencostei da cadeira e, tenho certeza, outros milhões o fizeram, dentro e fora da arena.
– Não, não você. Em meio a tanta mediocridade, em meio a tanto ócio, em meio a tanta incompetência, em meio a tantos mortos-vivos, não será você a ter o nome manchado por uma humilhação patrocinada por gente que nada tem a ver com essa camisa, com essas cores.
Larguei a tristeza de lado, veio a raiva. E a expressão do homem sob os arcos também mudara. Sereno, lúcido, lábios cerrados, olhos fixos no inimigo que se aproxima, ele desvia rapidamente o olhar para o emblema no canto superior de sua camisa. E volta a encarar o inimigo. Que não o encara. Que parte para agredi-lo, mas hesita… E erra.
A sombra do homem de luvas cresce, mas sua expressão ainda é tranquila e firme.
Vem o segundo inimigo. Grande estatura, aspecto rude, ameaçador. E tenta encarar o homem de luvas. Não consegue e baixa o olhar. Mas aí vê o emblema em sua camisa negra. Não há mais volta e ele parte para a ofensiva. Desfere o tiro. E erra.
A sombra do homem de luvas torna-se imensa, transborda da arena, e as hordas inimigas parecem não sentir mais as pernas.
Os mortos-vivos abandonam a letargia, recobram certa humanidade.
Até o maior dos parasitas, cabelos descoloridos, como a própria alma – desprovida de vontade – parece readquirir o interesse na vitória.
Mais um inimigo tenta o ataque. De fato, diante do homem de luvas, as pernas não respondem mais. E o tiro desferido perde-se no nada.
Cambaleante, o inimigo sofre o último revés e tomba sem vida.
A sombra do homem de luvas espalha-se para atemorizar aos que ainda virão. Para lembrar que, nas batalhas do ano anterior, ele não estava presente. Mas agora estará. Sabe que é o líder de uma tropa maltrapilha. Uma Cruzada de mendigos. Um exército de Brancaleone.
Mas lembra que não cai sem lutar. E que é capaz do inimaginável quando enverga aquela camisa, aquele emblema de três cores.
Perece dizer, com o tom da voz crescendo a cada frase, enquanto olha para as bandeiras a tremular, enquanto ouve os urros de gratidão dos seus:
“Não sou um goleiro.
Não me chamo Rogério Ceni.
Eu sou o vermelho, o branco e o preto.
EU ME CHAMO SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE.
EU SOU A LENDA!!!”
Dario Campos
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